Memória publica, vidas privadas

Bruno Covas faleceu hoje e os jornais e redes se enchem de sentimentos lamuriosos sobre o ex-prefeito, ex-deputado e neto de dinastia politica do estado de São Paulo. Se foi por câncer no estômago, provando que apesar de crermos que somos donos das nossas vidas, ninguém escapa dos tortuosos caminhos da genética.

Engraçado pensar no breve legado de Covas como prefeito, dada o simbolo que o avô dele era como figura da ala social-democrata do PSDB. Bruno entrou no balaio dos movimentos de João Doria dentro do partido em prol de uma renovação mais a direita, que tratora o que é velho nas alas tucanas, que promove casamentos ao mercado e em que a politica publica desumaniza e despreza a pobreza que tanto asola a cidade. O papel do estado é muito bem delimitado pelos interesses econômicos da elite paulistana farialimer, higienismo de Higienópolis e banho gelado em morador de rua a temperaturas de dez graus. Covas compactuou com isso em sua breve gestão e mostra qual o tipo de renovação ele representava. Não lamento a triste ida da figura pública e toda sua trajetória, mas lamento a perda de um jogador na disputa pública. Li muita gente o acusando de estelionato eleitoral porque ele sabia da gravidade de seu cancer e que ele, como figura publica responsavel, deveria não ter disputado o pleito.

Pior que isso, so o ranço do Ciro Gomes pela popularidade do Lula. Papo de mau perdedor.

Bruno tinha todo o direito de ter esperança em sobreviver ao câncer e não ter seu corpo duplamente condenado a se retirar. Achei inclusive muito humano da parte dele ainda ir nos corres da eleição, num pleito que convenhamos foi muito favorável a ele. Inspirador alguém ter essa força num momento de fragilidade como esse. Parabéns ao Bruno por ter vencido no tucanistão, azar o nosso de ter perdido, jogo segue, vamo pras outras lutas.

E aí é que vem narrativa que se quer disputar com o significado dessa morte. Politicas de melhoria efetiva pra pessoas ou disputar por disputar toda eleição dentro de um quadradinho teórico a lá PSTU? Porque ta ai o que Covas representava no seu próprio aumento salarial, corte do vale-transporte pra idosos, não priorização dos professores na vacinação contra COVID e continuidade das politicas de desapropriação de lares e reintegrações de posse, em plena pandemia. A memória pública de renovação politica que Bruno Covas representou foi do pior tipo, independente dos caminhos que ele não pôde continuar a trilhar em sua vida privada. As disputas que ele entrou lhe eram familiares e ele escolheu o lado que queria se vincular: velhos espaços com caras novas. Espaços esses que sempre foram lutas necessárias para grupos minoritários, onde sempre estiveram. Tocando suas pequenas vitorias, palmo a palmo, mas que ainda não escalaram o suficiente pra fora dessas bolhas. Vidas privadas de um comprometimento público.

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